“
Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”
Clarice Lispector
Não entendo
February 13, 2011Presença
January 5, 2011É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.
Mário Quintana
Castigo
October 30, 2010Ela estacionou o carro em frente a casa e caminhou pelo jardim até a varanda ensolarada. Parecia não haver ninguém , mas era pouco provável, ele havia lhe telefonado e com voz firme lhe mandara estar lá em vinte minutos. Ela estava apreensiva, numa ansiosa expectativa de prazeres e delícias. Sentou-se numa poltrona da varanda esperando que ele viesse encontrá-la, sentia-se pouco a vontade para simplesmente entrar na casa. Ela apenas seguia determinações e o esperava.
Muitos minutos se passaram e ela olhava o jardim com a serenidade de quem espera o inexorável.
Um cheiro bom e familiar tomou conta do ar e ela se sentiu acender. Ele estava próximo, pensou. Antes mesmo que se virasse, ouviu-o perguntar doce e calmamente se ela estava cansada e antes que ela respondesse, ele a mandou seguir para o dungeon, sem olhá-lo.
Ela desceu as escadas da varanda e caminhou pelo jardim com a presença dele a acompanhá-la. A ansiedade já a consumia, a expectativa de uma sessão lhe despertava todos os sentidos. Sentia o cheiro dele e seu corpo se agitava. Ele a mandou entrar e a seguiu, fechando a porta atrás de si.
O ambiente estava escuro e seus olhos demoraram alguns segundos para ver. Ouviu o barulho da chave de luz a um canto e imediatamente o espaço se iluminou. O perfume dele preenchia o ar, assim como a presença dele, aos seus olhos, preenchia o mundo mesmo que fosse aquele mundo.
Ela ficou imóvel, ardendo de vontade de olhá-lo mas sabia que deveria esperar. Abaixou a cabeça e assim o fez. Esperou. Ele caminhou até o meio do dungeon. Correntes desciam pelas paredes de pedra tocando superfícies de madeira . A pouca luz dava um ar de cenário ao ambiente embora as sensações que ela ali já sentira a fizessem lembrar da torrencial realidade daquela atmosfera.
O tempo, o ambiente, o ar pareciam sólidos que a encapsulavam na espera de uma palavra ou um gesto dele indicando o que fazer, o que falar, o que sentir. Seu sentir e ser eram dele, porque assim deveria ser, porque assim ambos queriam. Por fim, ele, ainda sem olhá-la e com um sorriso enigmático que ela podia pressentir e entender, mandou que se dirigisse ao xis de madeira no fundo da sala. Com o olhar no chão, ela caminhou lentamente até lá quando o ouviu mandar que parasse. Ela não sabia o que iria acontecer mas cada parte de seu corpo tinha consciência e certeza do que viria. Ela sentiu-se alagar, diluir-se liquidamente em desejo. Os minutos pareciam muitos e ouviu -o arrastar uma cadeira e sentar-se às suas costas. A voz dele preencheu o mundo, como a dos antigos mestres que proferiam cerimônias no começo dos tempos. Ela sentia que suas palavras quase concretas, atravessavam, como flechas, seu corpo e sua mente. Ecoavam dentro dela a desonra, o não merecimento, o desagrado, o erro, a falha, essas palavras pareciam únicas, transformavam-se e ganhavam formas dentro dela e lhe rasgavam a pele, as entranhas, o corpo e os pensamentos. Sem saber se por ordem dele ou vontade sua, ela caminhou lentamente até o xis encostando-se nele. Pernas e braços abertos, olhos fechados, mente disponível ao significado daquelas palavras. Seus ouvidos alertaram o que viria. O som do chicote batendo nas pedras lhe arrebatou.A dor a despertou e se desdobrou num conjunto único de dor,prazer,culpa, orgulho, realidade, fantasia, superlativo e diminutivo. Aquelas palavras exerceram toda sua força e poder. Ela tudo sentia até mesmo o prazer dele. Sentiu que seu vestido se rasgava a cada chicotada que se seguia, até que se desfez e nada mais se intrometia entre o couro do chicote e sua pele. Suas costas ardiam mas não mais do que a fogueira que a queimava por dentro e ouvia sua própria voz ao longe…trinta e sete…trinta e oito…
O beijo
October 10, 2010Auto-retrato feito por Ele
September 9, 2010Liberdade e Poder
August 28, 2010
Quando ouvimos falar em relacionamentos BDSM nos vem a imagem de um(a) Dominador(a) trazendo pela guia um(a) escravo (a) encoleirada(o). O significado? Posse.
E quando ouvimos falar em relacionamento aberto? Um casal sorridente que flerta abertamente com outros homens e mulheres num bar. Significado? Liberdade.
Há um pouco de fantasia nisso. Porém não tão distante de dois conceitos importantes: a posse BDSM e a liberdade afetiva e sexual dos relacionamentos abertos. Em comum, têm a não tradicionalidade dos relacionamentos monogâmicos e um leque diferente de possibilidade sexuais. Porém, o espírito BDSM se inspira com alguns ares de poliamor e abertura nos relacionamentos. Embora o oposto não seja verdadeiro. Relacionamentos abertos não combinam com posse e exclusividade.
No BDSM, as relações D/s ( Domínio/submissão ) são antes de tudo relações de possessividade e exclusividade vinda da transferência erótica do poder. É sua essência. Independente da forma, seja 24/7 ou não , com Transferência Total de Poder ou parcial, a posse é o início , o meio e o fim, o objetivo.
O desenvolvimento da relação ou jogo, como chamam alguns se estabelece então. Sentir-se propriedade, saber-se proprietário é o desejo dos pares. Independente do número de pessoas envolvidas, como nos casos de um Top que possua várias(os) submissas(os), a ligação é entre dois. Esse vínculo envolve as práticas , os sentimentos e os projetos afetivos e pessoais. Coleiras virtuais e reais, novos nomes dão materialidade a posse e a exclusividade.
A escravidão erótica, o Domínio e a submissão permitem conceitualmente a poligamia dos Tops. Como Senhores de escravos , a possibilidade de possuirem escravas(os) ou submissas (os) é limitada apenas por sua vontade e/ou capacidade gerencial-afetiva. Baseada na idéia Bílbica de que “não se serve a dois senhores ” as submissas são exclusivas. Como objetos, não se pode pertencer a mais de um Dono que por sua vez pode possuir vários objetos.
Os relacionamentos abertos se constroem em bases diferentes. Na idéia de que é possível o envolvimento de um homem ou uma mulher com mais de uma pessoa. Sugere o poliamor, se pode amar, se envolver afetiva e sexualmente de forma responsável com várias pessoas simultaneamente. Pressupõe a individualidade reconhecida e a complementariedade de amores, tesões, paixões e objetivos entre várias pessoas. Crê na constante disponibilidade das pessoas para encontros mais do que casuais, sugere a liberdade afetiva e a real realização dos desejos individuais. Mas..aqui temos um ponto de contato com os relacionamentos BDSM.
A idéia da posse é apoiada sobre a noção de pessoa-objeto, da escravidão erótica. Assim, os Tops proprietários podem sim, ter mais de um(a) escravo (a) entendendo que apesar do envolvimento afetivo, do desejo sexual e da afinidade das fantasias, as diferentes escravas se complementam. Cada uma oferece sua individualidade ao Top. Assim, caso deseje, um Top pode buscar em diferentes escravas aquilo que sua liberdade afetiva e sexual permite. Quantas vezes ouvimos que diferentes escravas complementam o Dono, que ele administra o que há de melhor em cada uma por mais diferentes que sejam. Aí está a interseção dos dois conceitos. Os adeptos do BDSM crêem no poliamor e em relacionamentos abertos onde a liberdade de envolvimento predomina, porém, apenas para Tops, logo a liberdade caminha de braços dados com o poder. Essa idéia é ampla no meio BDSM embora não se trace normalmente este paralelo, mas sim, Tops podem amar muitas e de muitas maneiras. Bottoms compartilham da idéia mas sentem pessoalmente que o pertencimento é único, exclusivo.
Os relacionamentos abertos nos mostram a possibilidade de diferentes amores e vivências simultâneas como uma experiência radical , enriquecedora e plena. O BDSM indica que a liberdade abre portas para a plenitude no entanto, é parceira do poder. O poder dos Tops em multiplicar seus afetos e desejos e o poder dos escravos em foca-los na exclusividade. O uno e o múltiplo, isso é BDSM.









