Ela estacionou o carro em frente a casa e caminhou pelo jardim até a varanda ensolarada. Parecia não haver ninguém , mas era pouco provável, ele havia lhe telefonado e com voz firme lhe mandara estar lá em vinte minutos. Ela estava apreensiva, numa ansiosa expectativa de prazeres e delícias. Sentou-se numa poltrona da varanda esperando que ele viesse encontrá-la, sentia-se pouco a vontade para simplesmente entrar na casa. Ela apenas seguia determinações e o esperava.
Muitos minutos se passaram e ela olhava o jardim com a serenidade de quem espera o inexorável.
Um cheiro bom e familiar tomou conta do ar e ela se sentiu acender. Ele estava próximo, pensou. Antes mesmo que se virasse, ouviu-o perguntar doce e calmamente se ela estava cansada e antes que ela respondesse, ele a mandou seguir para o dungeon, sem olhá-lo.
Ela desceu as escadas da varanda e caminhou pelo jardim com a presença dele a acompanhá-la. A ansiedade já a consumia, a expectativa de uma sessão lhe despertava todos os sentidos. Sentia o cheiro dele e seu corpo se agitava. Ele a mandou entrar e a seguiu, fechando a porta atrás de si.
O ambiente estava escuro e seus olhos demoraram alguns segundos para ver. Ouviu o barulho da chave de luz a um canto e imediatamente o espaço se iluminou. O perfume dele preenchia o ar, assim como a presença dele, aos seus olhos, preenchia o mundo mesmo que fosse aquele mundo.
Ela ficou imóvel, ardendo de vontade de olhá-lo mas sabia que deveria esperar. Abaixou a cabeça e assim o fez. Esperou. Ele caminhou até o meio do dungeon. Correntes desciam pelas paredes de pedra tocando superfícies de madeira . A pouca luz dava um ar de cenário ao ambiente embora as sensações que ela ali já sentira a fizessem lembrar da torrencial realidade daquela atmosfera.
O tempo, o ambiente, o ar pareciam sólidos que a encapsulavam na espera de uma palavra ou um gesto dele indicando o que fazer, o que falar, o que sentir. Seu sentir e ser eram dele, porque assim deveria ser, porque assim ambos queriam. Por fim, ele, ainda sem olhá-la e com um sorriso enigmático que ela podia pressentir e entender, mandou que se dirigisse ao xis de madeira no fundo da sala. Com o olhar no chão, ela caminhou lentamente até lá quando o ouviu mandar que parasse. Ela não sabia o que iria acontecer mas cada parte de seu corpo tinha consciência e certeza do que viria. Ela sentiu-se alagar, diluir-se liquidamente em desejo. Os minutos pareciam muitos e ouviu -o arrastar uma cadeira e sentar-se às suas costas. A voz dele preencheu o mundo, como a dos antigos mestres que proferiam cerimônias no começo dos tempos. Ela sentia que suas palavras quase concretas, atravessavam, como flechas, seu corpo e sua mente. Ecoavam dentro dela a desonra, o não merecimento, o desagrado, o erro, a falha, essas palavras pareciam únicas, transformavam-se e ganhavam formas dentro dela e lhe rasgavam a pele, as entranhas, o corpo e os pensamentos. Sem saber se por ordem dele ou vontade sua, ela caminhou lentamente até o xis encostando-se nele. Pernas e braços abertos, olhos fechados, mente disponível ao significado daquelas palavras. Seus ouvidos alertaram o que viria. O som do chicote batendo nas pedras lhe arrebatou.A dor a despertou e se desdobrou num conjunto único de dor,prazer,culpa, orgulho, realidade, fantasia, superlativo e diminutivo. Aquelas palavras exerceram toda sua força e poder. Ela tudo sentia até mesmo o prazer dele. Sentiu que seu vestido se rasgava a cada chicotada que se seguia, até que se desfez e nada mais se intrometia entre o couro do chicote e sua pele. Suas costas ardiam mas não mais do que a fogueira que a queimava por dentro e ouvia sua própria voz ao longe…trinta e sete…trinta e oito…

October 30, 2010 at 1:38 pm |
Delicia de castigo……hum…castigo mesmo??? Ou puro deleite?
Saudades de ti querida.
Beijos carinhosos,
ÍsisdoJun
November 3, 2010 at 6:34 pm |
uma linda cena, sem dúvida…
dois seres que se entregam ao prazer.
A sua visão, o seu relato mostra as sensações e percepções da submissa.
Pode imaginar o que sente ou se passa na cabeça do Dono do chicote?