Invasões Bárbaras e o BDSM

Acompanho listas de discussão BDSM de 4 estados, converso com pessoas e  participo, hoje, de umas 4 comunidades virtuais sistematicamente, até criei uma  com duas  sócias e ajudo na moderação de outras duas. Que curriculo…

Mais atuante impossivel, quase uma militante BDSM.

E curioso como certos assuntos, como ondas, vão e vem. Ficam esquecidos por um tempo e de repente alguém ja tocou no assunto de novo. Pois é , o  assunto hoje é  polêmico. Quem é, quem não é, onde  esta o verdadeiro BDSM, o verdadeiro sádico, a verdadeira submissa e por ai vai.

São tantos verdadeiros e falsos, tantas verdades mas  ainda assim, me parece diálogo de  surdos, porque  os critérios variam as  vezes de pessoa para pessoa, as vezes de grupo para   grupo, mas  não sei se apesar de ser quase militante e frequentadora assídua do meio sou capaz de entender:

– o porque da insistencia. Tá, entendo, porque o verdadeiro “soy yo” e a copia mal feita sao “los otros”.

– quem tem o poder de dizer quem é e quem nao é. Tambem posso entender, of course.

– para que essa preocupação. è acho que tambem entendo.

No final das contas a gente tem  a velha linha  que separa o nós ( verdadeiros, bons, autenticos blablabla) e os outros ( falsos, imperfeitos, similudos, fakes, blablabla ). Usada tambem, claro, para por os amigos do nosso lado e os nao muito amigos do outro.

Há um que de moralismo  nesse discurso e  um movimento que leva a  apontar dedos, a deslegitimar, resulta em segregação , na discriminação.

Isso tudo parece contraditorio dentro da comunidade BDSm mas não é, é o esforço máximo de criar identidades e alianças tão próprios de grupos alternativos como o nosso. Definir  fronteiras, preservar-se  de  invasões “bárbaras” ( aventureiros sexuais, exploradores, psicopatas, baunilhas melosos e afins ). È isso que fazemos  todo o tempo, definimos  as fronteiras e os limites, alias exercicio  feito tambem intimamente, limite é um conceito de grande valor  entre nós. Existe para ser rompido individualmente, mas ao mesmo tempo estamos dizendo: “não rompam o do nosso mundo”.

Criamos  a idéia de um mundo apesar  de  diversificado , passivel de controle, onde ha poderes  pulverizados e territorios definidos ou que nos esforçamos para definir. Isso acontece no plano  das relações entre os individuos e  no plano BDSM x não-BDSM.

A ameça de invasoes barbaras amedronta porque põe em risco a fronteira que tão arduamente tentamos marcar  com o SSC básico, com a  liturgia  ainda que  leve em alguns meios e com os saberes acumulados de técnicas de práticas e com todo o discurso bedesemista  que diariamente se  produz e se posta na internet, relacionado à  realidade vivida por cada um. É um incessante construir.

Já conheço as definições, as teorias, nao  quero falar  disso , busco entender apenas o porque da  constante  inquietação.

Coloco isso aqui porque to na minha caixinha.

8 Responses to “Invasões Bárbaras e o BDSM”

  1. Tormentos Says:

    Ana, li o texto. Não há o que acrescentar. Está perfeito. Você disse bem.

    “busco entender apenas o porque da constante inquietação.”

    Se eu fosse responder a isso com as minhas palavras, eu diria: Porque temos respeito pelas nossas práticas e não queremos ver o que nos é tão íntimo tratado com descaso ou como circo de quem não sabe seu valor.

    Insistimos numa mensagem que, por mais que possa parecer discriminatória aos olhos de alguns, é educativa: analise-se porque ninguém além de você mesmo, leitor, é capaz de conhecer, dentro dos parâmetros que lhe damos, baseados em nossos sentimentos e estudos de uma vida, a si mesmo e saber se aqui é a sua praia, pois não queremos a mudança daquilo que somos nem aquilo que praticamos sendo motivos de chacota por sua, digamos, incompetência. Não queremos que você, confuso, perdido no meio disso, se não for a sua, nos represente a todos, falando em nosso nome quando diz ser um adepto de BDSM sem o ser. Certifique-se primeiro de que você é, porque quando você fala essas 4 letrinhas e eu também falo nós devemos ter algo em comum, ou um de nós está equivocado, e, neste caso, temos aí um conflito de “identidade”, que não interessa a quem preza pelo que faz para sentir prazer.

    Não podemos aferir, só o próprio individuo é capaz disso. Nós nos inquietamos para dar a ele as medidas, os parâmetros, as fronteiras, que por força dos nossos desejos, de nossas descobertas e do interesse pessoal em nos conhecer, descobrimos com estudo e tempo. Ele, único conhecedor do seu interior e seus desejos, faz a aferição de si mesmo.

    Aí vem o povo do “abaixo o rótulo”, o que entendo como o povo do “oba oba”, e diz “que nada, tudo é festa”. Ora, se não é necessário rótulo, posso chamar um ser desses de anta que nao faz diferença, certo?

  2. Tormentos Says:

    (Complementando…)

    “Nós nos inquietamos para dar a ele as medidas, os parâmetros, as fronteiras, que por força dos nossos desejos, de nossas descobertas e do interesse pessoal em nos conhecer, descobrimos com estudo e tempo. Ele, único conhecedor do seu interior e seus desejos, faz a aferição de si mesmo.”

    Se não o faz, nós o cobramos, sem apontar o dedo, porque qual o benefício de um “alienigena” entre nós, distorcendo tudo, confundido e desinformando sobre sobre nós?

  3. anammk Says:

    Certo, Dom Tormentos. O interessante é ver a fronteira que construimos que como toda muralha desafia o invasor e ao mesmo tempo, deve defender quem a construiu.
    Agradeço o comentario
    ana

  4. Mestre Borg Says:

    Buenas,

    Sadismo e Masoquismo. Por si essas palavras representam crueldade e sofrimento. E são o motor dos nossos desejos. Mesmo quando se destaca e separa a Dominação e submissão, ainda resta nesse tipo de relação alguma forma de imposição e anuência que definem esse tipo de relação. Mas crueldade e sofrimento são palavras que definem bem o tipo de desejo que nos toca.

    Entretanto, somos civilizados, temos leis, direitos, temos o respeito e a moral. E esse desejo por crueldade e sofrimento não podem se manifestar plenamente sem que a dignidade humana seja maculada. Pq quando se atinge esse ponto, nossa sociedade civilizada passa a considerar de opção sexual para Crime.

    Surge então a questão, até que ponto podemos ser Sádicos ? Até que ponto podemos tolerar nosso masoquismo ? Existe a possibilidade de uma relação saudável ser sadomasoquista ? Onde estão os limites de cada um e como identificá-los ?

    Mais que isso, quem coloca a corda no pescoço – a parte submissa ou masoquista – tem preocupação extrema em saber identificar se a outra parte vai parar quando esse limite que coloca sua dignidade e seu bem-estar em risco for atingido. É possível identificar no comportamento algo que indique esse respeito ? Há alguém que conheça tão profundamente o SM para que se possa depositar confiança em dizer quem respeita e não respeita limites ?

    É com base nessas questões fundamentais que se codificou o São , Seguro e Consensual. Como princípios a partir dos quais a sexualidade sadomasoquista e a dominação e submissão podem ser vividos com o mínimo de garantias necessárias à dignidade de quem pratica e sua preservação.

    É isso faz com que grupos se formem, a princípio da tentativa de identificar pessoas confiáveis e com quem se possa compartilhar os mesmos gostos. E a inquietação que você cita está na eterna identificação daquilo que é aceitável e daquilo que não é aceitável. O que é conveniente ao grupo ou não. E eventualmente, o que possa ser manipulado para essa conveniencia ou não.

    Há entretanto, uma outra questão que não corre pelos grupos, mas que estão nas mentes, em pensamentos solitários, em muitos casos naqueles que se distanciam. A questão é até que ponto essa “civilização” dos instintos de Crueldade e sofrimento enfraqueceu os instintos SM a ponto de torná-lo fingimento ?

    Os ajustes de limites de Sadismo e limites do masoquismo, seja na negociação ou na prática, a princípio pareciam caminhar para um desenvolvimento, pois com o tempo haveria uma maior lucidez e capacidade de tolerancia. Entretanto, esses ajustes levam tempo e harmonia entre os que se relacionam, e cada um o vive de uma forma. E os casos em que houve excesso e onde esse ajuste falhou, tiveram consequencias traumáticas de forma que o zêlo é cada vez mais justificável.

    A Invasão Barbara referida, é um estranhamento de pessoas que não se sabe terem passado por esse processo, que não se sabe sequer se têm esse desejo SM, ou se o usam como pretexto de aproveitamento. Enfim, bárbaro é o desconhecido. E a ele se mostra o SM como um fetiche, como um brinquedo sexual, um jogo. E esse jogo é amplamente difundido, virando objeto de consumo. Em bares, masmorras de aluguel, sexshop, boutiques, feiras e exposições. É tudo uma brincadeira exposta na TV para os barbaros consumirem… E quando gastam e participam, alguns se sentem invadidos. Invasões Barbaras.

    Mas isso torna o SM um fingimento ? Isso tira algo de seu instinto inicial ?

    Creio que ele continua aí, dentro daqueles que já nascem com essa necessidade de vivenciar esses instintos e não se satisfazem completamente sem eles. Esses podem até se frustrar, porque ficou mais dificil diferenciar o Sadismo e Masoquismo de Alma do SM de boutique. Mas se eu tenho em mim um desejo, devo acreditar que a natureza proveu outro ser com desejos que me complemente, e buscar essa pessoa.

    Grande abraço,

    Mestre Borg

  5. anammk Says:

    Querido Mestre Borg
    Agradeço muitissimo seus comentários e atenção. De fato a “domesticação” da crueldade e do sofrimento impôem limites ao proprio conceito SM, mas acho interessante pensar nesses limites e poder ver ate onde vai o SM de Alma e o de butique.
    Com certeza, a natureza nao deve ter sido tao madrasta de nao nos ter provido de outro ser com desejos que nos complementem…rs
    beijos

  6. Maestro Alex Says:

    Eu agradeço estar na tua lista de recomendados, e estou fazendo o mesmo na minha.

    Abraços

    M. A>

  7. Addam Says:

    Não vejo nesse texto um ataque aos rótulos, mas sim uma dissertação sobre os motivos deles existirem e serem o que são, tanto no meio como fora dele. Acho q todos, entretanto, têm o direito de tomar das práticas e dos rituais o que mais lhe convier e fazer disso o seu ponto de vista do estilo de vida BDSM, sem com isso ser taxado de vão ou charlatão.

  8. anammk Says:

    Caríssimo Sr Addam,
    Obrigada pelo comentario e visita, sempre bem vinda.
    De fato, antes de tudo busco entender o q ue esta dentro e o que esta fora e pq os colocamos assim…só isso. rs
    beijos, Sr.

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