Invasões Bárbaras e o BDSM – 2

 

Invasões Barbaras 2

 

 

Pensar sobre o que não é BDSM ou quem não é, por definição nos faz pensar no que é, e em quem é BDSM. Olhando o cenário de comunidades, chats e listas de discussões esse assunto é sempre presente porque, ele serve justamente para criar definições e marcar fronteiras.

 

Há duas formas de tentar abordar esse assunto: uma interior ao próprio grupo BDSM, já tão bem abordados por muitos praticantes ,incluindo e agradecendo os comentários de Dom Tormentos, Mestre Borg e Lord Addam , aqui. Outra maneira, que me proponho, é ver de fora do território BDSM. São visões que podem se complementar posto que uma é gerada visceralmente pelo próprio grupo e outra pode se prevalecer de alguma objetividade pelo distanciamento sem perder o foco.

 

Retornando ao conceito de “limite” e todo o simbolismo que ele carrega no BDSM. Os limites são pessoais e a pratica sadomasoquista está baseada na transgressão e superação de limites interiores, daí nascem as D/s e as relações puramente Sado/masoquistas.Ate onde se pode ir, até onde suportamos ir, ate onde esta o limite pessoal. A questão do limite é um dos pontos iniciais de qualquer conversa entre Dominadores(as) e submissos(as) ou Sadicos e masoquistas, entendendo sempre que irão pautar o interesse na continuidade de uma conversa em vistas a uma relação BDSM.

Se os limites pessoais, sobretudo das(os) submissas(os), no caso da D/s, forem poucos desafiadores, por demais restringentes, não apontarem algo do interesse do Dominador, a “conversa” é abortada rapidamente. Portanto, falamos muito de limites, pensamos muito sobre nossos limites e como fazer uma interface entre eles.. Intimamente, submissas e Dominadores,sadicos, masoquistas buscam superar limites.

 

Por outro lado, possivelmente tanto introjetamos essa idéia, do que pode ou não, do que é limite e do quão possivel é rompe-los, que podemos projeta-los para fora de uma relação e propositalmente ou não, apontamos os limites de nosso grupo ( chamo aqui de grupo, os praticantes sadicos e/ou masoquistas que tem como referencial o conjunto de noções que consensualmente identificamos como BDSM ).

 

Esse grupo tem limites claros e ao mesmo tempo difusos, porque são estruturados coletivamente numa dinâmica sistematica de discussões e textos. Os pontos em que nos baseamos para construir um discurso articulado sobre BDSM são muitos.

 

O próprio Sadomasoquismo não se realiza plenamente porque esta atrelado à estrutura de uma sociedade onde ele, o SM, é visto como desviante e carrega estigmas por isso. Internamente, os limites que um sadico se propoe por exemplo, tambem o contêm nos quadros da moralidade, da sanidade e da consensualidade. Há fantasias de praticas e desejos puramente sadomasoquistas que se limitam ao âmbito da fantasia e dele não podem sair. Se são instintos, exigem sua domesticação para que por outro lado, o sadico/masoquista possa ter uma identidade social compativel e aceitavel fora desse grupo. Portanto o tempo todo, lidamos com fronteiras entre ter uma identidade sadomasoquista dentro de um grupo que assim se define e ter uma identidade social mais ampla, preservando-a de estigmas.

 

Outro aspecto que insistentemente se coloca é a questao da massificação, da banalização, do modismo em ser BDSM. Sem duvida , a internet é um mar amplamente navegavel e certamente se nos colocam tags de sexo, perversão, conteúdo adulto, atraímos muito mais curiosos aos nossos espaços virtuais. Muitos certamente olham com curiosidade momentanea e levam seu mouse a outros cliques, outros se detem um pouco e buscam informações, porque afinal, estamos num mundo de informações e alguns vem ali a identificação de seus anseios, desejos, fantasias, perversões ou ate a “solução” para questões que possivelmente se resolveriam em outras paragens.

 

Não há como impedir. Estamos expostos e ate que ponto somos permeáveis à curiosidade alheia. Uns criam perfis, se inserem virtualmente aqui ou ali e acreditam que são acolhidos com generosidade. Parece esse o caminho das invasões bárbaras. Portanto, qual a fragilidade em nossa muralha que permite invasões? Seria a constante exposição? Talvez, mas não importam as hordas bárbaras porque, lembrando o texto de Dom Tormentos “BDSM- Fronteiras” ( publicado na comunidade Piratas BDSM,no Orkut) estamos em mundo intermediario entre a “normalidade baunilha” e a “patologia psicotica”. O “bárbaro” explora nossa território mas não permitimos que mudem as ruas, as estátuas de lugar ou derrubem árvores de nossas praças. È dentro do meio BDSM que travamos a batalha dos limites e sejam quais forem os limites, dos mais intimos ao mais públicos.

 

È dentro do grupo que os “bárbaros” transitam e são assimilados ou não. Se descobrem parte desse mundo ou não, a retirada virá, voluntária ou compulsoriamente, através dos estigmas que criamos sobre os “bárbaros” que nos rodeiam.

 

Mas estigmas da outro texto e acho que Goffman ajudará a pensar.

4 Responses to “Invasões Bárbaras e o BDSM – 2”

  1. Rúbia Cunha Says:

    Como sempre sua visão sobre tudo o que envolve, pessoas “bárbaras” ou não, vem a ser o ponto inicial de conversas e mais conversas a respeito do assunto em questão.
    Os grupos quando se tornam fortes, sofrem suas invasões, seja em qualquer esfera que vivamos.
    A curiosidade sempre foi a melhor fonte para atrair os curiosos.
    Ao meu ver e em minha opinião, nada como uma boa conversa para esclarecer e vencer as barreiras e os moldes que se dizem mais fortes e arredios.
    No mais…
    É um prazer voltar aqui e ler mais um texto tão interessante.

  2. Lorde Addam Says:

    Pois se não venho aqui ler, caríssima, algo que há tanto já nos pegamos discutindo, considerando e argumentando. Do comportamento dos estigmatizados, por exemplo, Goffman realmente traz uma excelente interpretação à mesa e ajuda, inclusive, na percepção do tipo de visão que o meio baunilha tem dos BDSMistas e das reações destes aos primeiros.

    Para mim, dinâmica dessas relações vem comprovar que não deixam de existir conflitos e hierarquias dentro do grupo estigmatizado, até pela necessidade de algum tipo de coesão e alguma forma de controle.

    De qualquer maneira, é muito bom vê-la desenvolvendo esse lado da discussão, por vezes ignorado. O meio BDSMista parece às vezes fazer questão de evitar.

  3. Maestro Alex Says:

    aplaudindo

  4. {ÍsisdoEgito}JZ Says:

    Ana,
    belo texto o teu…….tua visão esta certa querida, ocorre exatamente como a descreveu….
    Felizes (ou não ) dos Barbaros e aqueles que à eles se juntam……….
    {ÌsisdoEgito}JZ

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