Quinta às 4 da tarde.

 

Ela caminhava lentamente pela rua porque ainda tinha tempo. Vinte para as quatro da tarde. Há dois anos aquela cena se repetia como um ritual. Todas as quintas-feiras ela dizia ao mundo que ia ao dentista à tarde. Ia sempre ao mesmo hotel barato no centro, o mesmo quarto que o recepcionista lhe entregava a chave com um habitual sorriso irônico.

Ela chegou à porta do hotel, pegou sua chave e subiu as escadas até o 303. Abriu a porta como se fosse de sua casa. Jogou-se na cama abandonadamente. Lembrou da primeira vez que foi ao hotel. Sempre se lembrava desse dia. Ele lhe havia ligado durante toda a semana. Se conheceram em um encontro do meio SM. Ela os frequentava à época em busca de um Dominador a quem servir e entregar toda a dor que precisava sentir. Conversaram, ele a olhou de modo forte, imperativo, não deixando lugar a dúvidas ou meia palavras. Era ele o homem que a conduziria pelo labirinto de sua dor, à quem serviria e obedeceria esquecendo-se de suas mais íntimas vontades.

 

Lembrava dos relatórios diários, das ordens que ele lhe dava durante o dia. De como trabalhava sem calcinhas, outros dias com plugs, dos prazeres monitorados no banheiro da empresa. Sentia-se abrigada em seu desamparo. Era sua menina, como ele lhe dizia ao telefone. Ansiou tanto por mais um encontro, como desejava sua presença física mas ele dizia, estava num período atribulado, trabalho, problemas com a família. Mas ela pouco se importava, esperaria porque ansiava e sabia que era questão de tempo. O encontro aconteceria, ela poderia de fato demonstrar sua entrega, sua submissão , sua necessidade dele e em troca teria o sorriso sádico que já conhecia, saber-se mero objeto que permissivamente ,no limite da perversão lhe proporcionaria prazer.

 

Enfim, ele conseguiu se desvencilhar de seus problemas e marcou quinta-feira as quatro da tarde num hotel barato do centro da cidade. Recomendou, chegue antes de mim e me espere no quarto 303. Fique nua, use apenas uma venda e me aguarde, teremos duas horas, mas a quero todas quintas-feiras nesse horário.

 

Ainda lembrava a ansiedade que a consumia a primeira vez que chegou ao hotel. Às vinte para as quatro, entrou no quarto e sentia seu corpo vivo, seus poros ardentes que se alertavam só com o roçar de suas próprias mãos. Despiu-se já antecipando tudo que lhe seria extraído para saciar a perversão dele. Colocou a venda ,deitou e esperou. De olhos fechados, cada vez mais ignorava o que vinha do ambiente e suas fantasias tomavam corpo como um déjà vu invertido. Sentiu arder seu rosto em tapas violentos, o sussurro em seu ouvido de quanto era vadia e do quanto lhe pertencia. Podia mesmo sentir a dor do pequeno açoite que ele manejava sem piedade e as lagrimas lhe brotavam aos olhos de dor, de prazer, de gratidão, de alegria, de redenção.

 

O tempo passou rápido e o telefone a arrancou impiedosa e violentamente de seu mundo, ele disse: não pude ir,minha menina, problemas, não vamos nos falar essa semana mas quero que me envie os relatórios e mantenha minhas ordens nos horários combinados. Quinta-feira me espere ai no mesmo horário. Desligou o telefone , suspirou. Sentiu vontade de chorar de decepção mas não o faria, ele não gostaria e ela era dele. Esperaria até a próxima quinta-feira, obediente e resignada, porque assim ele queria.

 

Na quinta seguinte tudo se repetiu e na outra também. Ele ainda não pode vir, pensava ela e nem lhe telefonar , mas não tinha dúvidas que ele lia seus relatórios e se orgulhava e se excitava com sua entrega incondicional.

 

Há dois anos aquela cena se repetia como um ritual.

ana.mmk

 

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4 Responses to “Quinta às 4 da tarde.”

  1. Lorde Addam Says:

    Excelente conto, minha rata, embora narre uma situação da qual sabes bem que discordo um bocado. Entretanto, ficou muito bom, muito bem escrito e adorei o descrever das sensações, dos momentos da personagem, nessa submissão e entrega tão intensa e tão cega.

  2. anammk Says:

    Obrigada pelo comentario e elogios,Senhor. È so um exercício de ficção, discordamos da situação sim, mas esse é o final 1, a copia do diretor era diferente *rs*.
    beijos
    ana

  3. Rubia Cunha Says:

    Não sei bem o que dizer.
    Melhor…
    Sabes bem como passar as sensações, Ana, mas ao mesmo tempo tais sensações causam uma revolta extremada em meu ser devido às lágrimas derramadas pela personagem, pelo descaso ocorrido… Por uma dominação que visou apenas um dos lados.

  4. anammk Says:

    Rubia, é uma historinha inventada, que alias foi modificada no meio do caminho, mas sera que houve descaso? A dominação visou um dos lados sim, ela se auto-dominou, digamos assim. Alguem mais são, nao voltaria todas as quintas-feiras as 4 da tarde, aguardaria a confirmação da segunda sessao e nem teria certeza que apesar de nao respondidos seus relatorios eram lidos. OK, num enredo desses o “dominador” em questao , se nao tiver excluido seu proprio email, ja estaria preocupado com a sanidade do outro. Mas por razoes inominaveis minha historia mudou de rumo no meio *rs*
    beijinhos e bom te-la por aqui
    ana

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