A Normalidade do Sofrimento( psicanalise )

 

A normalidade do sofrimento

A nossa ordem social . que não tem como base a razão, mas a

necessidade de manter o interesse dos mais fortes . favorece o

sadomasoquismo, o narcisismo e as compulsões

José Leon

 

Crochík

O

 

s ideários e as práticas sociais correspondentes conseguem unir os homens pela identificação que podem promover entre eles. Com o seu enfraquecimento, essa identificação também tende a se deteriorar. Quando isso ocorre, segundo Freud (1976), surge o pânico, que além de desagregar as relações entre os indivíduos, também tendea liberar os impulsos contrários à vida em civilização.Na atual sociedade, o pânico é constante e os impulsos destrutivos têm um destino distinto do que tinham nasociedade liberal. Apesar disso, esta sociedade ainda consegue,ao menos parcialmente, defender-se desses impulsos,remetendo-os para o próprio indivíduo, e gerando aqueles que são adaptados e os que não o são. Como os ideais coletivos atuais abrigam, em geral, a mentira manifesta, quando os indivíduos a eles aderem, o fazem com a quase consciência de que não é o seu conteúdo manifesto que os leva à adesão, mas a possibilidade de satisfazer desejos pouco elaborados, que os mantêm em seu estado de menoridade, o então a necessidade de autoconserva ção. A possibilidade de felicidade que encontram é a resignação com a sociedade estabelecida, que os desobriga a pensar e a agir de acordo com o que de fato deveriam se preocupar: o combate às fontes da miséria material e psíquica. 

Miséria material e psíquica

 

Deve-se ressaltar que a superação da miséria material não elimina a psíquica, posto que mesmo em uma sociedade de abundância de produ-ção material, se essa abundância não é dirigida à felicidade individual, volta-se contra ela; basta ter em mente o consumo conspícuo, uma forma de compulsão. A integra ção social que, segundo Horkheimer e Adorno (1985), tenta conciliar o universal com o particular por meio de uma hierarquia pré-estabelecida promove os adaptados os não adaptados. Para os adaptados, a hierarquia social, que tem como base não o conhecimento, a razão, mas a necessidade de reprodução social, e assim a manutenção dos interesses sociais mais fortes, é particularmente favorável ao surgimento do sadomasoquismo, do narcisismo e das compulsões. A felicidade é possível ao sadomasoquista, não só por estar bem colocado na hierarquia, mas porque sempre deve haver alguém abaixo daposição que ocupa. Mas a autodestruição . representadapelo masoquismo, que também proporciona felicidade,posto ser objeto do prazer alheio . e a subserviência dão a ilusão ao indivíduo de que será protegido daqueles queo submetem. O sentido da vida torna-se pertencer à hierarquia, fazer bem o que se deve fazer, sem se pensar noque se está fazendo. O narcisista, que se refere a uma outra forma de adaptação atual, não deixa de utilizar a ordem para satisfazer os seus desejos; a abdicação que fazda consciência não o leva ao isolamento social. O não contestar a hierarquia estabelecida e o trabalho bem feito, e entenda-se como trabalho bem feito seguir as normas técnicas e burocráticas estabelecidas, são requisitos quer do mundo do trabalho atual, quer de sua representação política. O sadomasoquismo e o narcisismo são estruturas psíquicas propíciasa esta sociedade e geram oprazer na manipulação e na dominação, ainda que de formas distintas.

Narcisistas, masoquistas ecompulsivos 
Como dito antes, entre os adaptados também seencontram os compulsivos. Os sadomasoquistas ainda têm relação com os objetos externos, precisam de objetos específicos para lhes dar prazer; o narcisista tem prazer com o seu próprio eu, mas necessita de reconhecimentoconstante. Quanto ao compulsivo, se há uma .escolha. do tipo de compulsão, o prazer ocorre pelo próprio movimento da pulsão que não diferencia os diversos objetos dentro da modalidade escolhida. Se essa modalidade é o sexo, não importa com quem ou com o que realiza o seu desejo; se esse objeto é a comida ou o trabalho, também não. Não parece ser exagero supor que se adaptam  bem aqueles que sabem mandar, que sabem obedecer, que só pensam em si e os que não precisam de objetos específicos e elaborados para realizar as suas paixões. Deve-se ainda dizer sobre o narcisista que esse tem prazer em se sentir melhor do que os outros, o que nãoé difícil nesta sociedade, que dá prêmios à mediocridade e quase não propicia a auto-reflexão. Os três tipos significam defesas contra o sofrimento, que surge da abdica- ção do desejo de se vincular a objetos reais.  Assim, subjacente à normalidade, encontra-se o sofrimento

Já a síndrome do pânico mostra a falência dos mecanismos de adaptação, e revela que a ameaça constante traz os seus efeitos. Quando não há quase mais ideários aos

 

quais alguém possa se vincular pela sua racionalidade, o medo de estar desamparado vem à tona. O isolamento em casa impede os diversos atos necessários à manutenção individual e social.

Pânico e depressão

O pânico, no entanto, ainda leva a pedir por socorro, já a depressão não necessariamente; caracteriza-se por forte melancolia, na qual o sadomasoquismo, o narcisismo e a compulsão tomam parte, masagora agindo somente no indivíduo, sem prescindir do sofrimento dos que estão ao seu lado. O eu já não se julga merecedor do amor, o supereu pune constantementeo eu, que representa o objeto com o qual não émais possível se relacionar. A primazia do eu também é notável na depressão; nada, nem ninguém mais importa.

Por fim, as idéias fixas, que são um modo de compulsão também se apresentam. A depressão como onegativo da adaptação traz a sua verdade: a relutância, e quando é o caso, a desistência de se relacionar com oque não seja eu, que aparece com menos visibilidade nos tipos adaptados.Quer a adaptação quer a resistência a ela giram em torno do sentimento do desamparo, ao que responde o objeto amado, seja esse uma pessoa, uma atividade, um ideário social. Não se deve, segundo Adorno (1986), reduzir osentimento de desamparo ao desamparo real, ainda que o último fomente o primeiro. Assim, se não devemos interpretar as desordens psíquicas imediatamente pelas desordens sociais, não devemos deixar de relacioná-las.

 

A sociedade, segundo esse autor, leva os homens às regressões psíquicas que necessita para a sua reprodução, e assim podemos entender que suscita os mecanismos do sadomasoquismo, do narcisismo, da compulsão. Mas quando os indivíduos se tornam cada vez menos necessários para a reprodução da ordem social, tornando-seum estorvo, a volta a si mesmo pode implicar, cada vez mais, o abandono dos vínculos sociais, e assim a morte psíquica e depois, talvez, o suicídio.

Auschwitz, mais que uma alegoria

 

Na sociedade administrada, não é só a felicidade individual que não está em primeiro plano, mas a própria vida. Auschwitz continua a ser mais do que a alegoria de nosso tempo e, ao que parece, não é mais necessário construir câmaras de gás, pois os homens liquidam-se a si mesmos.

Deve-se notar, que dificilmente os atuais ideários políticos ou mesmo o desespero dos apelos éticos têm provocado uma luta conseqüente. As frustrações que tivemos no Brasil com a atuação dos que foram eleitos .democraticamente. enfraquecem nossos ideais. Uma vida cuja melhor perspectiva seja a adaptação, com os distúrbios discutidos antes, não oferece a possibilidade de uma vinculação racional. O pouco empenho e compromisso que os atuais trabalhadores têm em relação ao seu ofício revela ampliação da alienação, que agora é quase que consciente, ou seja, a percepção de que o trabalho e seus produtos já não contribuem para a constituição de uma sociedade racional. Se os explorados pelo trabalho ficam contentes por terem uma remuneração, ainda que insuficiente, e por serem explorados, os que não trabalham tentama todo custo, de maneira formal ou informal, também ser explorados. Se a dominação do capital pôde outrora servira ele mesmo e à humanidade, cada vez menos serve a essa última, torna-se cada vez mais insuportável pela sua irracionalidadecrescente, e à sociedade irracional corresponde a irracionalidade individual.

A luta política deve continuar a ser contra o capital; e osurgimento de uma alternativa ao capital, enunciada no século 19, deve ter a felicidade e a liberdade individuais não só como metas, mas também como aquelas que não sejam utilizadas como falsas esperanças e levadas maisuma vez ao sacrifício. Se o capitalismo gera infelicidade, por ser contraditório possibilita também a sua crítica, e por meio dessa devemos começar a recuperar a capacidade de o indivíduo buscar a sua felicidade e liberdade na sua relação com os outros indivíduos.

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Adorno, T.W. Acerca de la Relación entre Sociologia y Psicologia. In:

Jensen, H. (org.) Teoria Crítica del Sujeto. Buenos Aires, Ed. Siglo XXI,

1986. p.36-83.

Freud, S. Psicologia de Grupos e Análise do Ego .

Rio de Janeiro:Imago,1976.

_______ El malestar en la cultura. In: Braustein, Nestor A. (org.) A Medio

Siglo de El Malestar en La Cultura de Sigmund Freud.  México, Siglo Veintiuno, 1986.

Horkheimer, M. e Adorno, T.W. (1947). Dialética do Esclarecimento .2a.

José Leon Crochík
é professor doutor do Depto. de Psicologia da Aprendizagem
do Desenvolvimento da Personalidade do IP USP. É autor de
Preconceito, Indivíduo e Cultura

(ROBE editorial, 1997), entre outros. 

OPINIÃO: BRASIL, PSICANÁLISE

WWW.OFICINAINFORMA.COM.BR REPORTAGEM
N.61 OUTUBRO 2004 43

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