Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Não entendo

February 13, 2011

 

 

 Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”

Clarice Lispector

Presença

January 5, 2011

  É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento

das horas ponha um frêmito em teus cabelos…

É preciso que a tua ausência trescale

sutilmente, no ar, a trevo machucado,

as folhas de alecrim desde há muito guardadas

não se sabe por quem nalgum móvel antigo…

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela

e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir

como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista

que nunca te pareces com o teu retrato…

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mário Quintana

Femme-fleur. Picasso, 1946

Castigo

October 30, 2010

Ela estacionou o  carro em  frente  a casa e   caminhou  pelo  jardim  até  a  varanda  ensolarada. Parecia  não  haver  ninguém , mas  era pouco provável, ele  havia lhe  telefonado e  com   voz  firme  lhe  mandara   estar lá em  vinte minutos. Ela  estava  apreensiva,  numa ansiosa  expectativa  de  prazeres e delícias. Sentou-se  numa  poltrona  da  varanda  esperando que  ele viesse  encontrá-la, sentia-se pouco a  vontade para  simplesmente  entrar na  casa. Ela  apenas  seguia  determinações e  o  esperava.

Muitos minutos se  passaram e  ela  olhava  o jardim  com  a  serenidade  de  quem  espera o inexorável.

Um  cheiro  bom e  familiar  tomou conta  do   ar  e ela se  sentiu  acender. Ele  estava próximo, pensou. Antes  mesmo  que  se  virasse, ouviu-o  perguntar  doce e  calmamente se ela estava cansada e  antes que  ela  respondesse, ele  a  mandou  seguir para  o  dungeon, sem olhá-lo.

Ela  desceu  as  escadas  da  varanda e caminhou pelo jardim com a presença  dele a   acompanhá-la. A  ansiedade já a  consumia, a  expectativa de uma  sessão lhe  despertava  todos os  sentidos. Sentia  o cheiro dele e  seu  corpo  se  agitava. Ele a  mandou  entrar  e  a seguiu, fechando  a porta  atrás  de  si.

O  ambiente  estava  escuro e  seus  olhos  demoraram  alguns segundos  para  ver. Ouviu  o  barulho da chave  de  luz  a um  canto e  imediatamente  o  espaço se iluminou.  O perfume  dele  preenchia o  ar, assim como  a presença  dele, aos  seus  olhos,   preenchia  o mundo mesmo  que  fosse  aquele  mundo.

Ela  ficou  imóvel, ardendo de  vontade  de  olhá-lo  mas  sabia  que deveria  esperar. Abaixou a  cabeça e  assim o  fez. Esperou. Ele caminhou  até o meio  do  dungeon. Correntes  desciam pelas  paredes de  pedra  tocando  superfícies de madeira . A  pouca luz  dava um ar  de  cenário ao  ambiente  embora as  sensações  que  ela  ali  já  sentira a  fizessem  lembrar  da  torrencial  realidade  daquela  atmosfera.

O  tempo, o  ambiente, o  ar  pareciam  sólidos que  a  encapsulavam  na  espera de uma  palavra  ou  um  gesto  dele indicando o que  fazer, o que falar, o que  sentir. Seu sentir e  ser  eram  dele, porque  assim deveria  ser, porque assim  ambos   queriam. Por  fim,  ele,  ainda  sem   olhá-la  e  com um  sorriso  enigmático que  ela  podia  pressentir  e  entender, mandou  que    se  dirigisse  ao  xis de  madeira  no  fundo  da  sala. Com o  olhar  no chão, ela  caminhou lentamente até  lá  quando  o ouviu  mandar  que  parasse. Ela não  sabia o que  iria  acontecer mas cada  parte  de  seu corpo  tinha  consciência  e certeza  do que  viria. Ela  sentiu-se  alagar, diluir-se liquidamente  em  desejo.  Os minutos pareciam  muitos  e  ouviu -o arrastar uma  cadeira  e  sentar-se às  suas  costas. A  voz  dele  preencheu o mundo, como  a  dos  antigos  mestres  que  proferiam  cerimônias  no  começo  dos tempos. Ela  sentia  que  suas palavras quase  concretas, atravessavam, como  flechas,  seu  corpo e sua  mente. Ecoavam  dentro  dela  a  desonra, o  não merecimento, o  desagrado, o  erro, a  falha,  essas  palavras pareciam  únicas,  transformavam-se  e ganhavam formas dentro  dela  e  lhe  rasgavam a pele, as  entranhas,  o  corpo   e os pensamentos. Sem  saber  se por  ordem  dele  ou  vontade  sua, ela  caminhou lentamente  até o  xis  encostando-se  nele. Pernas  e braços  abertos, olhos  fechados, mente  disponível   ao  significado  daquelas palavras. Seus ouvidos  alertaram o  que  viria. O  som do  chicote batendo  nas  pedras  lhe  arrebatou.A  dor a  despertou e  se  desdobrou  num  conjunto  único de  dor,prazer,culpa, orgulho, realidade, fantasia, superlativo e diminutivo. Aquelas  palavras  exerceram  toda  sua  força e  poder.  Ela  tudo  sentia até  mesmo  o prazer  dele. Sentiu  que seu  vestido  se  rasgava a  cada chicotada  que se  seguia, até que  se  desfez e  nada  mais  se  intrometia  entre o  couro do  chicote e  sua pele. Suas  costas  ardiam mas  não mais do  que  a  fogueira  que  a  queimava  por  dentro e  ouvia  sua própria  voz ao longe…trinta  e  sete…trinta  e oito…

O beijo

October 10, 2010

” Certa noite abotoou-se a flor, ou o beijo, que ela me deu trêmula – coitadinha – trêmula d e medo.Uniu-nos esse beijo único, breve como a ocasião, ardente , como o amor; prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres, de aflições “.

( Machado de Assis. A cartomante )

Auto-retrato feito por Ele

September 9, 2010

Liberdade e Poder

August 28, 2010

 

Quando ouvimos falar em relacionamentos BDSM nos vem a imagem de um(a) Dominador(a) trazendo pela guia um(a) escravo (a) encoleirada(o). O significado? Posse.

E quando ouvimos falar em relacionamento aberto? Um casal sorridente que flerta abertamente com outros homens e mulheres num bar. Significado? Liberdade.

Há um pouco de fantasia nisso. Porém não tão distante de dois conceitos importantes: a posse BDSM e a liberdade afetiva e sexual dos relacionamentos abertos. Em comum, têm a não tradicionalidade dos relacionamentos monogâmicos e um leque diferente de possibilidade sexuais. Porém, o espírito BDSM se inspira com alguns ares de poliamor e abertura nos relacionamentos. Embora o oposto não seja verdadeiro. Relacionamentos abertos não combinam com posse e exclusividade.

No BDSM, as relações D/s ( Domínio/submissão ) são antes de tudo relações de possessividade e exclusividade vinda da transferência erótica do poder. É sua essência. Independente da forma, seja 24/7 ou não , com Transferência Total de Poder ou parcial, a posse é o início , o meio e o fim, o objetivo.

O desenvolvimento da relação ou jogo, como chamam alguns se estabelece então. Sentir-se propriedade, saber-se proprietário é o desejo dos pares. Independente do número de pessoas envolvidas, como nos casos de um Top que possua várias(os) submissas(os), a ligação é entre dois. Esse vínculo envolve as práticas , os sentimentos e os projetos afetivos e pessoais. Coleiras virtuais e reais, novos nomes dão materialidade a posse e a exclusividade.

A escravidão erótica, o Domínio e a submissão permitem conceitualmente a poligamia dos Tops. Como Senhores de escravos , a possibilidade de possuirem escravas(os) ou submissas (os) é limitada apenas por sua vontade e/ou capacidade gerencial-afetiva. Baseada na idéia Bílbica de que “não se serve a dois senhores ” as submissas são exclusivas. Como objetos, não se pode pertencer a mais de um Dono que por sua vez pode possuir vários objetos.

Os relacionamentos abertos se constroem em bases diferentes. Na idéia de que é possível o envolvimento de um homem ou uma mulher com mais de uma pessoa. Sugere o poliamor, se pode amar, se envolver afetiva e sexualmente de forma responsável com várias pessoas simultaneamente. Pressupõe a individualidade reconhecida e a complementariedade de amores, tesões, paixões e objetivos entre várias pessoas. Crê na constante disponibilidade das pessoas para encontros mais do que casuais, sugere a liberdade afetiva e a real realização dos desejos individuais. Mas..aqui temos um ponto de contato com os relacionamentos BDSM.

A idéia da posse é apoiada sobre a noção de pessoa-objeto, da escravidão erótica. Assim, os Tops proprietários podem sim, ter mais de um(a) escravo (a) entendendo que apesar do envolvimento afetivo, do desejo sexual e da afinidade das fantasias, as diferentes escravas se complementam. Cada uma oferece sua individualidade ao Top. Assim, caso deseje, um Top pode buscar em diferentes escravas aquilo que sua liberdade afetiva e sexual permite. Quantas vezes ouvimos que diferentes escravas complementam o Dono, que ele administra o que há de melhor em cada uma por mais diferentes que sejam. Aí está a interseção dos dois conceitos. Os adeptos do BDSM crêem no poliamor e em relacionamentos abertos onde a liberdade de envolvimento predomina, porém, apenas para Tops, logo a liberdade caminha de braços dados com o poder. Essa idéia é ampla no meio BDSM embora não se trace normalmente este paralelo, mas sim, Tops podem amar muitas e de muitas maneiras. Bottoms compartilham da idéia mas sentem pessoalmente que o pertencimento é único, exclusivo.

Os relacionamentos abertos nos mostram a possibilidade de diferentes amores e vivências simultâneas como uma experiência radical , enriquecedora e plena. O BDSM indica que a liberdade abre portas para a plenitude no entanto, é parceira do poder. O poder dos Tops em multiplicar seus afetos e desejos e o poder dos escravos em foca-los na exclusividade. O uno e o múltiplo, isso é BDSM.

Palavras 3

August 27, 2010

Palavras 2

August 26, 2010

Palavras 1

August 26, 2010

Era hóspede, não moradora.

July 27, 2010

 

Estrangeira, não  serva  daquele  Reino.