Romantização em BDSM – “Alma de Puta” e Personalidade Sádica.( Sr.Coltrane )

Romantização em BDSM – “Alma de Puta” e Personalidade Sádica.

Você pode, instantaneamente ao ler o título, objetar: mas o quê estas três coisas têm a ver uma com a outra?
Calma, Jack, e vamos por partes.

Romantizar, aqui para nossos propósitos, seria algo como atribuir significados afetivo-sentimentais a coisas onde isso não é necessariamente intrínseco. Merecidas ressalvas de quê, nada impede de que haja romantismo em um par (ou trio, ou quarteto) de praticantes relacionados entre si. Não viemos aqui estirpar o romance do BDSM – tarefa por demais infame e despropositada.

Mas sim, discorrer sobre a romantização forçada dos significados de uma relação.

Que é isso, prática sádica? Dependendo do ponto de vista… quem sabe. *rsrs*
Por definição, BDSM trata apenas – e não mais do que isso – de Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo. A prática, são meios de se obter este resultado. Alguns definem como prática sexual, outros afirmam que independe de haver ou não sexo. Levando-se pela etimologia, o segundo grupo está correto. Não é obrigatório sexo para que haja B+D+S+M. Contudo, o resultado desta combinação para o praticante, é a excitação também sexual (não se limitando a ela para muitos, acredito).

Decorre que o sexo em nosso contexto social precisa de argumentos e justificativas. O legado cristão-católico da america latina pede a procriação como argumento para o sexo, já os românticos, o amor, e os modernos, o prazer.

O viés da Dominação, é a submissão, e por vezes se ouve como justificativa para a submissão, o amor. “Não conseguiria me submeter não fosse por este motivo”. Em primeira instância, dado o citado anteriormente, nota-se justamente a busca de uma justificativa no amor para a o sexo em contexto BDSM. Amo, e por isto me submeto a obedecer a um homem (ou mulher, no entanto este discurso é 99% das vezes proferido por mulheres) assim como aceito torturas físicas e eventualmente humilhações.

A moralidade permeia nossos condicionamentos e comportamentos, e no contexto que vivemos, justifica ou condena nossos comportamentos. O caráter transgressor da sexualidade ortodoxa, contido no BDSM, abre espaço para a lascívia, os desejos que devemos ocultar. Uma submissa, no sentido prático, vai além do que faz uma prostitura pelo preço normal de um programa. Ela é capaz de atos que uma muitas profissionais do sexo não fariam. E o faz por disposição interior. Mas possuimos um censor íntimo, que nos solicita justificativas para o que fazemos de nosso tempo. E se justificativas para a prática de sexo sadomasoquista são necessárias, o padrão cristão de sexo para reprodução não se encaixa. Restam ainda amor, ou prazer.

Mas os códigos populares quando no âmbito da moralidade (aquela, com sabor de classe média e novela das oito) não justificam absolutamente a procura de uma relação sadomasoquista por prazer tão somente. Estes códigos sugerem que a mulher que busca o prazer pelo prazer, ou sofre de furor uterino, ou é… “puta”. A imensa maioria dos praticantes hoje se encontra na faixa dos trinta anos de idade para cima. E muitos realmente introjetaram a moralidade da época, mais rigorosa que a de hoje. A fêmea devassa é por vezes vista como uma mulher para diversão, contanto que não se a leve a sério, e isso baliza muito o comportamento feminino.

Este conjunto de circunstâncias doa à conceituação de BDSM por vezes um fardo pesado: sem amor, vira putaria sem sentido.

Naturalmente, não está escrito em lugar algum que para se praticar o sadomasoquismo, seja necessário um enlace amoroso. Com um pouco de honestidade, se reconhece que este é um argumento com dois propósitos: expiar remorsos, ou conjurar ao BDSM à necessidade de um parceiro fixo. Um Dono para Dominar, aparar a grama, trocar a lâmpada, matar uma barata, e não ser enganado pelo mecânico.

Recentemente divagava com um amigo, e sobre o mesmo assunto, com uma amiga. Chegamos à seguinte hipótese: a submissão pede algo de uma “alma de puta”. Suspendam a artilharia, ainda não molhei o bico.

Não se entenda por puta a mulher vulgar, que comercializa sexo, desprovida de valores ou de significado no sexo. Vamos para outro lado. As mulheres cínicas de Nelson Rodrigues, a luxúria justificada apenas pela necessidade humana de expor-se em profundidade no ato do sexo, e em pauta, o que considero uma forma requintada de sexualidade. Fugimos aqui do tesão vulgar “bundinha-peitão”, para devorar o banquete com requintes de crueldade de decadência.

Encontramos em complementaridade, a personalidade sádica, com a alma de puta. Que tal irmos aos símbolos de B+D+S+M?
Bondage, o fetiche por imobilização. O poder óbvio e irrefutável, de se ter o outro à mercê de sua vontade, impedido fisicamente de se objetar a sua satisfação, e do outro, de encontrar-se presa do desejo do parceiro, uma mosca na teia da aranha. Disciplina, ou D/s… a coroação da força de vontade de um sobre o outro, ditando as regras da saciedade por vir, e o parceiro, incapaz diante de tamanha massa de vontade, de não gravitar em torno dos caprichos da voz de comando. Sadismo, a expressão maior da perversão. Prazer apenas não basta, a dor também precisa ser sentida para ser dar as devidas dimensões agora à intensidade do desejo. Desejo-te tanto que quero que doa em ti, e sua recíproca, deseje-me tanto que doa em mim.
E agora… Shakespeare, ou Wilde? Definitivamente Wilde.
Este tipo de desejo requer uma companhia à altura. Sim… uma fêmea com a genuína alma de puta. Que apanhe do cafetão, e compareça na noite seguinte, de batom aos lábios e pronta para mais uma noite. Não por necessidade, mas por pura vocação.

Naturalmente, uma alma ingênua e desavisada há de se horrizar com estas palavras. Mas não… não me digam que buscaram B+D+S+M “por amor”. Eu não vou acreditar.

Mas se por uma imposição eu tenha de aceitar que submissão genuína se dá por amor… não posso supôr uma sujeição real onde haja tal comércio. O amante pede reciprocidade. Ele é ditador, é ciumento, possessivo. Que sujeição impõe condições tão caras quanto as do coração? Submissão por amor? Se por um momento aceitar falar neste idioma, que seja: “Falais baixo se falais de amor” (Shakespeare). Com um adendo pessoal: “…e de preferência, não o comerciais”.

Saudações.

fonte:http://casacoltrane.blogspot.com/2006/08/romantizao-em-bdsm-alma-de-puta-e.html

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