um guardado.bom texto

Mestre Phanton
Ouso discordar em gênero, número, grau e resolução de tela.
BDSM – insisto – não é casamento. No matrimônio é que as decisões levam rótulos do tipo “até a morte”. Decisões desse calibre exigem de quem as toma uma profunda reflexão prévia.
Tampouco o BDSM implica necessariamente em dor e sofrimento. Ou o infantilismo, o cross-dressing e a podolatria não podem ser chamados de práticas BDSM? Ou existe alguma norma internacional que proíba o BDSM de incluir, no rol de suas práticas, o Barbie way of life, onde tudo seria, sim, cor-de-rosa?
Também discordo que os praticantes dos EUA sejam autorizados a estabelecer conceitos válidos mundialmente acerca do SM. Faltam ao norte-americano coisas como sensibilidade, sutileza e sofisticação de raciocínio – coisinhas bastante importantes no momento de delinear os contornos de uma arte com os requintes do sadomasoquismo. E por trás do maior poderio econômico e militar do mundo se esconde um povo que ainda não tirou a mão do arado e a cabeça dos montes de feno. Ou sou só eu que percebo que George W. Bush (os dois), Bill Clinton, John Kennedy e Jimmy Carter ficariam ótimos posando em um comercial de tratores? Ou sou apenas eu que percebo que John McCaine é um capiau que se orgulha de não saber usar um computador? Ou sou só eu que me dou conta de que Ronald Reagan era ator de filme de faroeste e que o atual governador da Califórnia fez fortuna interpretando broncos que mal sabiam falar?
Foi só o meu ouvido que coçou quando ouviu um analista político norte-americano dizer que o ponto fraco de Barac Obama em sua campanha é o fato de ele ser identificado, pelos eleitores, como um intelectual de Harvard?
Pois é. Norte-americano manda porque tem bomba e sabe o que fazer com ela. Eles não são nem um pouco sofisticados. Confundem simplicidade com simplismo – o que é inevitável quando o terno e a gravata vestem uma mentalidade campesina. Por isso mesmo, não dou a menor bola para notícias que se referem a norte-americanos tentando brincar de formar mentalidades, como é o caso do BDSM.
E aqui estamos nós nos rudimentos do BDSM. Foi por isso que, anos atrás, bati firme na tecla de que os conceitos elementares do SM (ou BDDSSM, como tentaram impor os norte-americanos, em uma fracassada empreita no sentido de fazer valer sua versão das coisas) deviam ser debatidos à exaustão e, deles, extraídas lições práticas.
Discordo que haja uma hora de assustar. Nem antes, nem durante, nem depois.
Porque encaro o SM como um jogo – um jogo para adultos, mas, ainda assim, um jogo –. E, como em todo jogo, vejo que o fundamental é que as regras sejam estabelecidas previamente e respeitadas durante o decorrer das práticas.
O que falta, a meu ver, não é aviso aos novatos. É preparo dos veteranos. E por preparo, aqui, não me refiro a anos de punhos doídos de tanto bater e bundas roxas. Falo de requinte, sofisticação, sutileza, amadurecimento. E não creio que o fato de vivermos na terra do pagode seja desculpa para continuarmos oferecendo grotescos espetáculos de falta de tato no trato humano e de total insensibilidade quanto ao outro. Afinal, vivemos em um país onde um ex-bóia-fria começou seu mandato como presidente se vangloriando do próprio analfabetismo e, hoje, se porta (mesmo que para isso tenha que se privar de falar por improviso) como um homem digno do título que detém – o de chefe de Estado.
O Brasil é um caldeirão de culturas, uma mescla de mentalidades. O bóia-fria não define nossa mentalidade, assim como não o faz o sociólogo formado na Sorbonne que o antecedeu. Não é como os EUA, onde o presidente invariavelmente é a cara de seu povo bronco. Então, se queremos filosofar sobre o SM, devemos fazê-lo com a mentalidade do brasileiro; não, do americano.
Aqui, os jogos de chá ingleses convivem com kimonos japoneses em uma mesa regada a vinho francês e cerveja alemã, tudo na mais perfeita harmonia. Aqui, o atabaque africano faz coro com a orquestra européia; e o teatro, tradicional palco da ópera e do ballet, lota para ouvir um coroa, com um violão, tocando bossa-nova.
Aqui – e, talvez, em nenhum outro lugar do mundo, com tanta propriedade – a arte marcial oriental se une ao futebol inglês para criar algo novo, uma vertente do judô que, hoje, ganha reconhecimento universal.
Somos a terra da miscigenação, da convivência pacífica dos opostos, da mescla de técnicas, tecnologias e idéias.
Desculpe, vaca, mas sou obrigado a discordar de qualquer um que levante a voz para dizer “o sadomasoquismo brasileiro é assim ou assado”. Porque o sadomasoquismo brasileiro ainda está sendo inventado, construído. E nós somos esses inventores, meu amor.
Ou em que outro lugar do planeta um grupo de SM liderado por uma sub tem chances de ir adiante?
Falta-nos, isso sim, um debate mais aprofundado. Um debate que nos leve a refletir sobre a essência do SM. Sobre seus rudimentos. Um debate que produza, ao final, uma prática viável a todos os brasileiros. Faltam-nos um código de ética e regras de etiqueta. Falta-nos organização – algo indispensável para a convivência em grupo. Falta, enfim, tudo o que falta a quem está dando os primeiros passos em qualquer coisa.
Esse é o preço do pioneirismo. Os erros, normalmente, vêm em maior quantidade do que os acertos. Estes, por sua vez, quando ocorrem, geram algo realmente original.
Mas isso não é tarefa para os novatos. Não são eles que têm que, de antemão, ter consciência profunda a respeito do universo que estão adentrando. Somos nós, mais experientes, que devemos nos conscientizar de que são apenas novatos. Cabe a nós prepará-los para que não façam burrices demais.
Mas, para isso, devemos desenvolver a habilidade de aprender com nossas próprias experiências e, como bons brasileiros que somos, construir, com os melhores elementos que pudermos identificar em cada cultura mundo afora, um sadomasoquismo que seja a nossa cara.
Um grande abraço,
Mestre Phantom.

In:BDSM Sem Culpas yahoo groups.postado em 27.08.08

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